sexta-feira, 13 de maio de 2016

A transmissão de futebol no rádio brasileiro tem que ser repensada?

Anúncio da Rádio Record na revista Placar em 1989.
 Audiência 
em alta e anunciantes na fila
(Imagem: Reprodução/Placar)
Não é segredo pra ninguém que o rádio esportivo já viveu melhores momentos  em sua trajetória de mais de 90 anos de vida. Digamos que a última grande fase do rádio, esportivo foi a década de 80, números incríveis na audiência e equipes de  esportiva de qualidade  "brigavam" de igual pra igual. Lembro que o efeito sonoro do tempo de jogo conhecido como "mug" dava eco nos estádios de futebol. Na década de 90 veio a tv a cabo e consequentemente tantas outras tecnologias que colocaram de certa forma o rádio em segundo plano. Mas é hoje o que mudou?  No domingo, principal dia do futebol que tem jogo a tarde o esquema de transmissão continua exatamente igual,  as emissoras começam a falar logo cedinho do jogo tal que vai lotar o estádio etc... Se for final de competição então nem se fala. Tem pré jogo desde as 8 ou nove horas, o esquenta, a concentração etc....Comentaristas debatem, reportagem , ouvinte..(haja produção)  ...  na hora do almoço mais debate, convidados e matérias especiais, replay de gols históricos.... aí vem a abertura da jornada que acontece geralmente uma hora antes....o jogo, a finalmente o jogo ...narradores....comentarista...reportagem...gol, o grande momento, intervalo, o lance polêmico e o fim da partida. O  locutor exausto se despede antes anuncia o pós jogo....e por aí vai... replay do gol, entrevistas coletivas chatas  e arrastadas....depois de um bom tempo vem o tão aguardado destaque final do repórter  que é o primeiro a chegar e o último a sair. Ufá! tudo isso acontece e o domingo foi embora, aquele produtor que trabalhou em média 12 horas e vai embora depois das 21 horas zonzo de tanto trabalho.
Será que não existe um certo exagero nesse modelo?  Pensando nisso, ouvimos alguns jornalistas que relatam o que acham do modelo brasileiro e como é a cobertura na Europa Europa por exemplo. A discussão está aberta:

Wanderlei Nogueira da Jovem Pan e
TV Gazeta tem mais de 40 anos de profissão
Wanderlei Nogueira, repórter esportivo da Rádio Jovem Pan  desde 1977
" As transmissões esportivas no Brasil sempre foram muito diferente de outros grandes centros mundiais. Na Europa as transmissões tem menos emoção em relação aquilo que é apresentado por aqui. As culturas são diferentes. Recuando no tempo, acho que ouvintes tinham uma oferta maior de informação. Os repórteres com mais liberdade em campo, mais entrevistas, mais participações e mais revelações daquilo que acontecia no gramado. Nem bem o jogo terminava, lá estavam os repórteres nos vestiários. Chegavam a entrevistar os jogadores ainda no chuveiro...Boas entrevistas, interessantes e engraçadas. Hoje, há muitas restrições de tempo e espaço impostas pelos responsáveis pelas competições. Os repórteres precisam ser verdadeiros malabaristas , equilibrando pratos, vencendo obstáculos, criando alternativas e fazendo um esforço muito grande para levar uma boa carga de informações. Enfrentam fiscais, dirigentes, assessores e alguns estafes intragáveis." "As jornadas esportivas sempre foram iniciadas horas antes das partidas. Hoje, oficialmente , são abertas 1 hora antes do apito inicial. Mas, antes disso,os programas esportivos esquentam o evento. Entrevistas, enquetes, depoimentos , boletins informativos, participação dos ouvintes pelo telefone e convidados especiais. Com muitas vozes , os programas fluem naturalmente, o tempo passa rapidamente. A Jovem Pan tem grande preocupação em fazer um bom "final de semana". Matérias especiais com a participação de toda a equipe de esportes:apresentadores , repórteres, comentaristas, narradores, produtores...todos produzem material para o nosso final de semana esportivo. Não falta conteúdo .E como diz nosso vice-presidente, Marcelo Carvalho," está dando certo..." Ele tem razão" . Espero que seja isso ... 

Jornalista é correspondente Internacional 
O futebol nas rádios inglesas Por Ulisses Neto, correspondente  do Esporte Interativo e da Jovem Pan.    Talvez a forma mais simples de explicar as diferenças das transmissões do futebol na Inglaterra e no Brasil esteja na comparação inconteste entre Premier League e Campeonato Brasileiro. De um lado, temos uma competição moderna, mecanizada, que arrecada bilhões de libras todos os anos - monetizando tudo que é possível - e com sucesso internacional consolidado. De outro, um torneio que claramente necessita de reformulação em seu produto, com graves problemas financeiros e que aos poucos perde relevância na audiência ingressante. Na Inglaterra, apenas três rádios de alcance nacional compartilham os direitos de transmissão da Premier League: BBC 5 Live (AM e Digital), talkSPORT (AM e Digital) e Absolute Radio (FM e Digital). Os valores dos contratos de transmissão do rádio não são divulgados. Mas é possível dimensionar a realidade inglesa usando os números da televisão. No último leilão para o triênio 2016-2019 foram arrecadados mais de cinco bilhões de libras, ou o equivalente a 25,7 bilhões de reais. Ainda que o custo para o rádio seja apenas uma pequena fração desse valor, certamente estamos falando de uma cifra bastante significativa. As três donas das transmissões na Inglaterra têm perfis distintos e suas jornadas refletem isso. A BBC 5 alcança um público mais tradicional e abrangente, enquanto a talkSPORT, dedicada exclusivamente ao futebol, fala para os aficionados pelo esporte. Já a Absolute Radio, que tem programação musical, inclui a transmissão dos jogos em um programa batizado de Rock&Roll Football. Como o nome sugere, as partidas, análises e comentários são intercalados com hits de artistas britânicos. Em comum entre as três, apenas o modelo da transmissão com bola rolando. Dois narradores - um principal e um comentarista com intervenções a cada lance - comandam o ao vivo. Não são utilizados repórteres de meta e não são feitas entrevistas à beira do campo. Coletivas não costumam ser transmitidas por nenhuma das três e as jornadas esportivas são bem mais curtas que no Brasil (no máximo 45 minutos de pré e pós), exceção feita à talkSPORT que, conforme explicado, dedica sua programação exclusivamente ao futebol. Lembrando que, por causa do compartilhamento dos direitos, as rádios não transmitem jogos na sequência, como ocorre no Brasil. Outra diferença impactante da transmissão inglesa é que não há utilização de vinhetas, trilhas sonoras ou nada que interfira a narração do jogo. A história é contada apenas pelos comentaristas e o som ambiente, sem sonoplastia alguma durante o período de bola rolando. E isso faz muita diferença para os ouvidos habituados ao rádio brasileiro. O pré-jogo, porém, é preenchido com material exclusivo e preparado para aquecer os confrontos. Como o papel do repórter ao vivo praticamente inexiste, o conteúdo traz reportagens especiais produzidas durante a semana, entrevistas exclusivas com jogadores - que na Inglaterra conversam pouco com a imprensa - e análises elaboradas sobre os times. Confesso que ao chegar na Inglaterra levei um choque ao acompanhar as transmissões inglesas. O conteúdo local é realmente muito diferente do que é feito no Brasil. Há mais dinheiro envolvido e, por isso, a qualidade das produções pré e pós-jogo é, na minha opinião, mais interessante e bem elaborada. Entretanto, a 'emoção do rádio' é uma expressão que o público inglês desconhece. O ritmo, a estética e o padrão das transmissões podem ser bastante adequados para os europeus, mas jamais funcionariam para a audiência brasileira. Modernizar as transmissões do rádio brasileiro é, sem dúvida, um desafio tão grande quanto modernizar nosso campeonato como um todo. Tentar implementar no Brasil algo que funciona na Europa seria um erro crasso. Porque as expectativas da audiência são completamente diferentes. O produto é encarado com uma abordagem distinta. E porque os interesses dos envolvidos convergem para fortalecer a Premier League cada vez mais, e não apenas as expectativas comerciais individuais. O que se pode aprender com os europeus, no entanto, é que a concepção de um formato leva em conta a expectativa elevada de quem vai consumir a transmissão. O nível é alto em todos os lados da pirâmide: audiência, radialistas e futebol. Se for considerada a premissa básica de que do outro lado do rádio está um ouvinte que espera uma transmissão de altíssima qualidade, o resultado de qualquer reformulação certamente vai alçar o rádio brasileiro à outro patamar.