Imprensa x Jogadores x Assessoria

No último dia 28 de outubro o principal assunto na imprensa era o tal Chope na caneca ao invés de tulipas que o atacante Adriano tinha tomado em um bar no final de semana anterior, quando estava de folga no Rio de Janeiro.
O jogador ainda tentou disfarçar usando um boné e enchendo a mesa de refrigerantes de nada  adiantou, foi fotografado.
O assunto se estendeu na medida em que o presidente do Corinthians Andrés Sanches, comentou o episódio:
— Bebeu só chope? Poderia ter tomado whisky, porque chope engorda. Eu não sou babá de jogador. Treinando no horário dele, ele que encha a lata. Na folga dele, ele faz o que achar melhor — finalizou Andrés.
No último final de semana o BLOG conversou com o Chefe do Departamento médico do Corinthians e médico renomado na área esportiva, Dr. Joaquim Grava (que operou o tendão-de-aquiles do pé esquerdo do atacante em abril). Grava, que está no futebol há décadas seguiu  a linha do Presidente corintiano e falou desse episódio e também do relacionamento de hoje entre jornalistas e jogadores  de futebol. Entre frases polêmicas afirmou que o futebol está chato e que as entrevistas coletivas de hoje em dia  parecem mais interrogatórios.
"As especulações atrapalham  a vida particular e

 profissional do jogador"

Dr. Grava em coletiva concedida  em abril
Como o senhor classificou o episódio do Chope na caneca do Adriano?

A cobertura feita hoje pelos jornalistas é muito diferente de anos anteriores quando existia amizade entre jornalistas e jogadores e as especulações ficavam em segundo plano.
Jornalista viajava com a delegação, tinha livre acesso. Hoje isso não acontece mais
O episódio envolvendo o Adriano mostra mais uma vez que ninguém tem que se tornar babá de jogador, na folga qualquer pessoa sendo atleta ou não tem o direito de fazer o que bem entender.
"O futebol está muito chato! Hoje  tem muita cobrança e muita especulação"
O Senhor segue as declarações até de certo ponto irónicas do Presidente Andrés?

Sim, acho que o Andrés agiu normalmente, não vejo problema nenhum em saber que ele ou quem quer que seja saiu e bebendo por ai. Não vi ironia do presidente uma vez que todos sabem que cerveja e chope dão barriga, whisky não. Cada um faz o que bem entender em sua folga, jogador tem que tem a consciência que ele tem que dormir, e se cuidar é o que basta.
O que eu acho é que hoje o jogador é cercado por assessores e “amigos” que não sabem orientá-lo, hoje a blindagem prejudica. Há algum tempo existia amizade entre jornalista e jogadores que saiam juntos até pra beber, hoje em dia jogador é policiado, alguns tem medo de fotógrafos e jornalistas, a a perseguição dos jornalistas se deve pela falta de liberdade de imprensa, tudo está limitado. As especulações atrapalham a vida particular do jogador.
Isso acontece porque hoje em dia a imprensa não tem liberdade para trabalhar. As coletivas são muito chatas e raramente acrescentam alguma coisa e isso leva as especulações.
Sou do tempo em que o jogador conversava com o jornalista no campo após os treinos e até fora dele algumas vezes. Não existia coletiva e todos viviam em harmonia.
"Eu encaro coletivas como interrogatórios uma CPI"
Como o senhor vê a cobertura da imprensa nos dias de hoje?

Limitada! O futebol está muito chato hoje em dia. Tem muita cobrança e muita especulação. As coletivas são verdadeiros interrogatórios, uma CPI ( Comissão Parlamentar de Inquérito)
Um exemplo, são os técnicos que terminam um jogo e estão com a adrenalina a mil. Entrevista de técnico tem que ser dada no dia seguinte.
Veja o que está acontecendo com alguns técnicos? (Ricardo Gomes e Muricy Ramalho)
Eu fiquei com medo ao dar uma coletiva esse ano, justamente falando da operação do Adriano, a minha impressão é que eu estava sendo interrogado.
A entrevista tem que acontecer de forma positiva, os jornalistas não estão sabendo dosar,  e isso prejudica.

" Hoje a blindagem prejudica"
Do BLOG

As entrevistas coletivas ganharam força após a profissionalização do futebol brasileiro, que começou com a chegada da  "Era Palmeiras/Parmalat" em 1992 e  principalmente depois da conquista da Copa dos Estados Unidos em 1994.
De lá pra cá, aumentaram as empresas de Assessoria de Imprensa que tentaram copiar o relacionamento dos profissionais do futebol com os jornalistas na europeus.
Antes, nos grandes centros era possível conversar com quem quisesse qualquer dia da semana, no treino, antes dos jogos nas concentrações e principalmente após os jogos, onde muitas vezes o repórter entrevistava os atletas no vestiário e as notícias não eram idênticas como as de hoje, onde se lê, ouve e vê tudo praticamente igual por causa das coletivas.
Hoje as assessorias dos clubes, com raras exceções estão vendo mais o lado do clube que paga seus salários do que os dos jornalistas.
Está cada vez mais difícil conseguir matérias exclusivas e isso vem prejudicando consideravelmente o trabalho do jornalista que tem que se virar através de suas fontes e assim, buscar outras alternativas para dar uma notícia diferente e que não  dependa das assessorias/ assessores de imprensa.
E a tendência é que esse relacionamento fique cada vez menor como é na Europa por exemplo.


Ouça parte da entrevista com Dr. Joaquim Grrava
 Blog Cheni no campo entrevista Dr. Joaquim Grava by Cheni 


Fotos: Jornal Extra e  Eduardo Viana (Lanima)

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